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20.09.2018

'Nunca vi país tão nervoso e mercado tão calmo', diz Parnes

O diretor e economista-chefe da SPX Gestão de Recursos, Beny Parnes, disse que a economia brasileira ainda não se recuperou. Ex-diretor do Banco Central, ele vê uma economia estagnada e disse que qualquer previsão para 2019, neste momento, é um exercício de laboratório que desconsidera as incertezas políticas. O economista vê com "estranheza" a "calma do mercado" frente à falta de clareza sobre o futuro do país.

"Nunca vi o país tão nervoso e um mercado tão calmo... [As projeções para 2018] Parecem um rato de laboratório, inoculado com doenças que já conhecemos. [A projeção para o ano que vem] será um rato de laboratório mutante inoculado com um vírus que não conhecemos. Estamos indo para um caminho político completamente desconhecido", disse Parnes, no III Seminário de Análise Conjuntural de 2018, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Parnes destacou que um dos principais desafios do novo presidente da República será administrar a crise fiscal do país. E afirmou que o mercado reagirá, a depender de como o novo governo vai atuar.

"Estamos sentados em cima de uma falha geológica fiscal enorme e estamos provocando essa falha. E não há solução de curto prazo para o déficit", disse. "A questão é a quem o mercado dará o benefício da dúvida?", questionou.

Segundo as projeções da SPX, o PIB brasileiro deve fechar o ano com uma alta de 1,1%. Uma retomada mais consistente do PIB está, no entanto, embaçada hoje pelas incertezas políticas e pela crise fiscal do país, segundo analistas. A SPX chegou a cogitar crescimento de 0,8% para o PIB este ano, mas elevou as projeções depois que os efeitos da greve dos caminhoneiros se mostraram "menos duradouros".

Samuel Pessôa, pesquisador da área de Economia Aplicada do Ibre/FGV por sua vez, disse acreditar que, independentemente do resultado das eleições de outubro, o ajuste fiscal fará parte da agenda do próximo presidente.

"Vamos para uma arrumação fiscal independentemente de quem ganhar. E ela vai ser por meio de aumento de receitas, 2019 vai ser um ano de aumento de tributos", afirmou.

Ele explicou que, se a crise fiscal não for resolvida, haverá dificuldades para manter a inflação sob controle. "Haverá uma punição muito grande para o grupo político que for responsável pelo aumento da inflação e dificuldades para reeleição", disse.

Já a coordenadora do Boletim Macro e Pesquisador da área de Economia Aplicada do Ibre/FGV, Silvia Matos, disse que 2019 será um ano de dificuldades para as contas fiscais, devido às restrições em relação à regra de ouro e ao teto de gastos. "Qualquer novo governante encontrará um quadro fiscal muito desafiador", afirmou.

A previsão, segundo ela, é que a dívida pública continue crescendo e feche o ano em 77% do PIB. Para 2019, a previsão é de 80,5%.

Matos destacou que o PIB brasileiro fechará o ano com uma alta de 1,5% ante 2017. Ela acredita que o resultado do governo central em 2018 deve ser "significativamente melhor" que a meta traçada, puxado por receitas não recorrentes e mudanças legislativas vinculadas ao setor externo. "Mas não quer dizer que estamos bem", ressalvou.

Matos apresentou, ainda, as projeções para o câmbio - que, no cenário-base, chegará ao fim do ano cotado a cerca de R$ 3,90. "É mais provável que fique mais próximo de R$ 4 do que de R$ 3,5."

Para o chefe do Centro de Estudos Monetários do IBRE/FGV, José Júlio Senna, o Banco Central não deve reagir ao aumento do câmbio nas próximas reuniões do Copom.

Segundo ele, a valorização do dólar em relação ao real é "quase toda" influenciada pelas incertezas políticas, em meio à proximidade com as eleições.

"É tudo especulação sobre o futuro da politica econômica... O BC não vai reagir a preços de mercado determinados quase que exclusivamente pelo aumento das incertezas", disse Senna.

A visão é compartilhada por Parnes. Segundo ele, o BC deve manter o "sangue-frio" e segurar o aumento dos juros, apesar da alta do dólar. "As expectativas ainda estão sob controle… Acho que os juros vão subir, mas não acho que agora", afirmou.  

Valor Econômico

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